Domingo, 15 de Março de 2009

Baú aberto

 

 

 

 

 

Se há coisas difíceis de explicar, uma delas é a Saudade.

Ainda mais de coisas que não julgava poder sentir.

 

 

 

 

 

 

Saudade dos olhares ternos que me abraçavam e me acolhiam, sem necessidade de outro tipo de expressão.

 

Saudade daquela cumplicidade em que nenhuma palavra fazia falta e os pensamentos fluiam livremente, conjugados nas mesmas ideias, no mesmo momento, e que despertavam aquele riso tão nosso.

 

Saudade do cheiro a palha e terra molhada daquelas tardes em que o ar tinha aquela cor estranha, quando o sol teima em brilhar para além daquelas núvens escuras e densas.

 

Saudade de ver no horizonte o campo, os verdes, os castanhos, aquela mistura tão característica e harmoniosa que se insinuava para além do telhado descuidado da frente.

 

Saudade do céu azul e do sol brilhante, que dava a tudo aquelas tonalidades fortes, vivas e vibrantes.

 

Saudade do aroma do armazém, da azáfama da mercadoria a chegar, tanta coisa para conferir e arrumar.

 

Saudade daquelas tardes de verão de calor insuportável, de voltar de apanhar ar do terraço a ver os tons quentes do por-do-sol e ouvir a carrinha do pai a chegar, aquele barulho de motor inconfundível, que me fazia correr escadas abaixo para abrir o portão e dar um grande abraço.

 

Saudade de me sentir conhecida, dos cumprimentos, dos acenos, do voltar de cabeças para ver quem vai ali, do ouvir sussurrar pormenores bizarros e pouco discretos sobre quem passa.

 

Saudade de percorrer aquele caminho de todos os dias e de pensar onde me encontraria dali a alguns anos e se iria recordar aqueles mesmos pensamentos, revivendo de fora aquilo que fervilhava por dentro.

 

Saudade de quando subiamos até lá acima, naquelas noites de verão, e ali permaneciamos, abandonados ao nosso próprio tempo, envoltos em risos e histórias que só nós entendemos.

 

Saudade de ouvir o meu Nikita cantar enquanto regava os vasos de flores do quintal, a sentir o calor na face e a frescura da água cristalina nos pés, ignorando a voz maternal que me dizia "não molhes os pés".

 

Saudade dos planos que fazíamos e saudades da época em que os podíamos fazer, sabendo que ainda os podíamos realizar (tinhamos todo o tempo do mundo à nossa frente!), mesmo que na maior parte das vezes isso nunca chegasse a acontecer.

 

Saudades das caminhadas a lado nenhum, porque nunca havia destino possível, e íamos parar sempre ao mesmo sítio.

 

 

E pena de ver tudo isto tão distante, tão ausente, tão separado de mim.

Mas ainda assim consigo sentir, cheirar, ver tudo isto. Como se fosse o meu filme.

 

 

tags:
publicado por FruttiTutti às 23:10
link do post | comentar | favorito
|
8 comentários:
De cuidandodemim a 16 de Março de 2009 às 13:01
Se há coisas que ficam bem vivas dentro de nós são os momentos bons que passámos. Nunca os iremos esquecer. São saudades boas essas que sentes e melhor ainda será quando voltares a viver mais desses momentos...
Bjns
De FruttiTutti a 16 de Março de 2009 às 23:00
Isso é uma grande verdade, cuidandodemim.
Alimentamo-nos das nossas memórias e recordações. E, em certa medida, fazemos delas o motor para continuarmos em busca do que se tornará um dia numa memória tão boa ou melhor que estas anteriores. :)
beijinho*
De João a 20 de Março de 2009 às 00:11
E agora quem ficou também com saudades, fui eu. Foi mesmo bom ler este texto, primeiro porque está perfeitamente bem escrito com as tuas palavras e depois porque me fez lembrar que no meio da rotina tão sem significado há coisas mesmo valiosas que deixam saudade e vontade de reviver. Momentos únicos que ficam cá e fazem sorrir. Afinal são as origens, não são? E essas, façamos o que fizermos, não mudam nunca.

Beijo!
De FruttiTutti a 27 de Março de 2009 às 20:47
João, escusado será dizer que concordo plenamente.
Obrigada :)
De t0ze a 26 de Março de 2009 às 14:51
Deliciosas palavras. Adorei a forma como descreves-te com promenor as sensações da chamusca, e do que é estar por cá. Beijinhos.

PS: Os salgueiros a borda do tejo já estão todos em folha verde vejo-os daqui :P eheheh

Beijos
De FruttiTutti a 27 de Março de 2009 às 20:49
Ah t0ze, não sabes o quão afortunado és por poderes deliciar-te com essa vista linda todos os dias. E sim!, também tenho saudades de ti (e era a parte em que tocava a nossa música, lembras-te? ^^)
Beijinho
De Nuno a 27 de Março de 2009 às 17:22
Olha, gostei, gostei bastante. E tu sabes que eu nem sou dado a grandes saudosismos, mas foi bom recordar esses bons velhos tempos em que demorávamos uma hora a fazer o caminho entre a escola e as nossas casas, com conversas atrás de conversas sobre tudo e mais alguma coisa. Mas sabes o que é que eu sinto? Que apesar de ter mudado tanta coisa, e de passarmos tanto tempo afastados uns dos outros, afinal houve coisas que se mantiveram. E tenho sempre esta sensação cada vez que lá volto e que volto a encontrar aquelas pessoas com quem vivemos e que com quem crescemos. Afinal, parece que não mudou assim tanta coisa... E ainda bem, até é um pouco reconfortante, diga-se de passagem. Quanto, às cores, aos cheiros, aos sons, àquela paisagem que nos enche o coração, isso há-de continuar a existir, pelo menos enquanto o Tejo correr debaixo da ponte e o sino da Matriz repicar todas as horas (e meias-horas, que até é uma coisa um bocado irritante...). Beijinhos
De FruttiTutti a 27 de Março de 2009 às 20:54
Tive de ler o comentário duas vezes até acreditar que estava mesmo perante um comentário da tua pessoa, Nuno! Estou a brincar ;) A verdade é que fiquei mesmo contente com as tuas palavras. Obrigada! Por mais longe que estejamos e por mais tempo que levemos até nos conseguirmos juntar novamente, acho que há coisas que, realmente uma vez conseguidas, dificilmente desaparecem... uma delas é a cumplicidade. E ainda bem!
Estou cheia de saudades vossas.
Beijinho enorme

Sê muito benvindo ao meu humilde cantinho

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Reticências #8

. Reticências #7

. Reticências #6

. Reticências #5

. Efeito Borboleta

. Pompoarismo ou Arte-de-de...

. Embondeiros

. Reticências #4

. Parece-me bem.

. Amanhã talvez

.arquivos

. Junho 2010

. Maio 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds