Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Retalhos

Vesti o meu corpo de retalhos. Queria de uma forma indizível abraçá-los e, ao mesmo tempo, vê-los bem longe de mim. Eram retalhos dos pensamentos mais intimos, mais meus, dos desejos semeados em terrenos secos que os condenavam à morte mesmo antes de poderem florescer. Hesitei em cuidar deles, mesmo sendo meus. E quis afastar o perceber da respiração, o toque. Aquele toque que tinha ficado suspenso no ar e que eu queria atrair para mim, que eu tentava puxar com os meus olhos lânguidos, pela doçura, pela esperança, pela carência, pelo que ainda restava de mim. E as palavras jamais traduziriam aquilo que eu sabia estar a existir mas que tinha como errado, a voz da censura espetou-se como facas aguçadas que voavam na minha direcção. Mas mesmo com tudo isto eu senti-me bem, senti-me fresca, senti-me livre. Rodopiava e esvoaçava e estilhaçava-me em mil bocados que nunca se juntariam de novo da mesma forma como eram antes. Senti-me mudar de pele, de casca, de tudo.

Silêncio.

E fui bruscamente acordada de tudo isto e vi-me sentada no mesmo lugar, o mesmo eu, o mesmo tu, as velhas questões de sempre. E num suspiro esvaiu-se tudo o que poderia ser. Mas eu continuo a querer voltar ali. Ainda mais.

música: Beirut - Nantes
publicado por FruttiTutti às 00:29
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