Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Carta a alguém

Querido alguém, ou ninguém talvez,

 

Não sei bem o que te diga, mas apetecia-me conversar. Já tentei fazê-lo com as minhas quatro paredes, mas tornou-se aborrecido, elas são um pouco reservadas e não me contam muito de si. A minha televisão adoeceu e encontra-se em cuidados paliativos, já vi que não há muito a fazer, resta-me agora reservar-lhe pequenos confortos e um resto de existência descansado. Os meus telemóveis encontram-se estranhamente sossegados, quietos, prostrados, calados – acho que estão com alteração do estado de consciência ou então entregaram-se ao abandono. Os meus bonequinhos e peluches estão no sítio de sempre, mas têm os olhos baços e dirigidos para longe, como se evitassem focar-se em mim. Encontro-me, pois, muda há alguns dias, num silêncio interior e numa dúvida persistente. Olho à minha volta e constato mais uma vez que estou realmente só. Não é que não o esteja nos outros dias, mas esta é bem diferente daquela solidão acompanhada que constitui o meu dia-a-dia. Desta vez, queira ou não, estou mesmo só. Já ultrapassei a fase de me indignar porque não era suposto ser assim. Na verdade, parece que já desisti de tentar que assim não fosse. Ouço os sons vindos de fora e que fazem eco cá dentro, tão vazia me encontro – o cão da vizinha que ladra lá longe, a cigarra que faz um barulho irritante. Se não fosse sentir os passos da vizinha de cima e ouvir o barulho do helicóptero do INEM que se aproxima para aterrar no Hospital, acreditaria estar mesmo no meio do nada. Mas sim, estou mesmo no meio do nada. Olho para o relógio vezes sem fim, e cada minuto que passa é um minuto que dói. Deito-me, escondo-me nas almofadas. O telemóvel faz-me as perguntas de sempre mas eu recuso-me a responder.

Sabes, hoje senti-me realmente assustada. Assolou-me um pensamento que há muito não habitava em mim… precisamente aquele que mais me faz tremer, sofrer, abanar a cabeça com violência acreditando que ele assim se desvanece e nunca mais vai voltar. Sempre tive medo da morte. Para além da dos outros, da minha. Sempre quis acreditar que a minha vida seria como um filme ou um livro: enquanto dura, embrenhamo-nos na história, somos parte dela, vivemos lá dentro; quando termina, nós não terminamos com ela, nós permanecemos, pensamos, sentimos, somos, embora outra coisa qualquer. E depois tudo recomeça outra vez, mas quando termina, sempre regressamos à linha de base, onde continuamos a ser, a pensar, a sentir. Assusta-me pensar que com o verdadeiro Eu não seja assim, que depois de terminar não voltarei à “linha de base” e estarei pronta para outra. É este nada que me assusta. Este nada derradeiro e absoluto. E recuso-me a pensar que desapareça assim. E arrepio-me e contorço-me e escondo-me e choro. E não quero, com todas as minhas forças, que seja assim.

E olho mais uma vez para o relógio e dói mais uma vez. Acho que queria que o tempo voasse e levasse consigo todas as indiferenças e expectativas, todas as companhias ausentes, todas as conversas superficiais, para não ter de me cruzar com elas.

Sabes, acho que hoje desapareceu mais uma parte de mim.

E amanhã será um novo dia, com mais ausências, mais paredes, mais ocupações inadiáveis que se desfazem, mais nadas.

Voltamos a encontrar-nos amanhã.

Sempre tua, o que quer que seja,

Ana I.

 

publicado por FruttiTutti às 22:39
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13 comentários:
De Flá a 18 de Junho de 2009 às 22:41
A bem dizer...escolheste as palavras e as combinações delas que mais se adequam ao sentimento, à duvida, ao penar...

Acho que todas as pessoas com capacidade de raciocínio já sentiram tudo isto que com tanta mestria descreveste neste texto. Nesta carta.

Acho que está extremamente bem escrita. Uma escrita perfeita e completa. Numa linguagem pausada que eu tanto gosto. E com uma transparência de sentidos e significados brilhante.

Beijinho
De FruttiTutti a 19 de Junho de 2009 às 22:49
Princesa,

obrigada pela simpatia e carinho constantes.
É bom sentir-me compreendida. E é óptimo saber que tu, com todo o teu talento, aprecisas o que escrevi.
Volta sempre!

Um beijinho grande e toda a sorte do mundo.

P.S.: Ainda não pus o teu blog no meu cantinho dos "Sabores (a)provados", que falha! Vou tratar disso já já.*
De A lguém a 20 de Junho de 2009 às 13:52
carta recebida! procederei de imediato à fase seguinte, "provocações analógicas para estimulo positivista do lóbulo frontal" também conhecida por "cenas".

ps: já todos passamos por aí, talvez não com o helicóptero do inem para provar que existimos, mas de certeza que com algo muito semelhante. no meu caso é automotora para lousã.

psd: obrigado pelo linque! não sei é porque é que vocês me dificultam sempre a tarefa de os descobrir! :)
De FruttiTutti a 20 de Junho de 2009 às 15:00
Ena! Acho que sem querer o destinatário da minha carta descobriu-me :P

fico pois muito agradecida pelas provocações analógicas para estimulo positivista do lóbulo frontal. aliás, acho que levo uma injecção em bólus dessas sensações (não essas, aquelas!... enfim, as cenas) cada vez que entro no Brain, assim à laia de desfibrilhação, pelo que o link tem mais que legitima razão de existir! ;)

Beijinho e obrigada pela visita ;P volta sempre!
De A a 20 de Junho de 2009 às 15:30
certamente voltarei! até porque nem tenho nada planeado para os próximos meses, como sempre!
De FruttiTutti a 20 de Junho de 2009 às 15:36
Desde que não me venhas dizer que vais de férias para um sitio qualquer, que inclua mar (ou qualquer forma de agua que não seja duxe ou banheira), sol e puro anhanço, enquanto os tristes e desgraçados desprovidos de sorte e agraciados com uma bela e suculenta época de exames ficam a definhar em cima dos papéis, és muito benvindo :D
De A a 20 de Junho de 2009 às 15:39
pronto, pronto... já fui pôr a toalha de praia de volta na gaveta.
De FruttiTutti a 20 de Junho de 2009 às 15:41
Obrigada pela solidariedade!
Assim gosto mais ^^
De A a 20 de Junho de 2009 às 15:45
não tens de agradecer. agora vou sair daqui, para um sitio que não tem nada a ver com a praia.. sério!
De FruttiTutti a 20 de Junho de 2009 às 15:58
Hum. Ok, não sei se acredito. Mas por outro lado... quem é que se lembraria de ir à praia num dia como hoje, em que está sol, um calor do caneco, mar com agua fresquinha...??? Absurdo.
De A a 20 de Junho de 2009 às 16:05
dado que não fui a casa este fim de semana... não vou mesmo à praia, podes estar descansada ;)
De daplanicie a 2 de Julho de 2009 às 13:51
Em primeiro lugar agradeço o facto de me ter adicionado como amiga! Em segundo lugar quero dizer-lhe que estou realmente encantada com o que estive a ler! Quero dar-lhe os parabéns e dizer-lhe que a sua escrita é comovente e de uma perfeição tocante! Este post, por exemplo, está maravilhoso!
Um beijinho
De FruttiTutti a 2 de Julho de 2009 às 14:09
daplanicie,
o seu comentário colocou-me um grande sorriso no rosto. Tenho de agradecer-lhe por isso, pelas palavras tão simpáticas que me dirigiu. Aprecio imenso a sua escrita, embora de forma silenciosa, tinha de adicioná-la.
Um beijinho e, mais uma vez, obrigada!

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