Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Reticências #7

E hoje voltei a sentir necessidade de escrever.


Embalada pela guitarra do vizinho de cima, não sei bem se me perco nas recordações ou se me escondo das previsões. Só sei que hoje voltei a sentir que o chão me escapava, que continua a faltar-me um não sei quê que julgava ter. É medo, decerto.

É a vontade de chorar porque tudo parece desencaixado e fora do lugar. Ou então fui eu que me desajustei do cantinho de onde estava, contente e liberta, e fiquei nova e momentaneamente perdida num espaço ou num tempo que não sei identificar.

Parece-me que tudo o que tem parecido existir afinal não passou de uma grande trapalhada desta minha cabeça tola que insiste à força em sonhar, e algo estranho parece empurrar-me para me mostrar que não é bem assim como eu tenho andado a ver. E eu movo-me, alucinada, entre ideias e possibilidades, baralhando as cartas e deitando-as à minha frente como se da minha sina se tratasse. Acho que o ciclo em que eu acreditava ser feliz está a chegar ao fim. Afinal, sempre chega. Ou sou eu que de tanto querer ver esse fim longe, acabo por acordá-lo e chamá-lo para mim.

Sei que me sinto cansada. Sou eu mesma a fonte da minha desilusão.

publicado por FruttiTutti às 15:51
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Embondeiros

"De facto, como em todos os outros planetas, no planeta do principezinho havia ervas boas e ervas daninhas, e, logo, sementes boas de ervas boas e sementes daninhas de ervas daninhas. Mas as sementes são invisíveis. Dormem no segredo da terra até que a uma lhe dê para acordar... Então, espreguiça-se e começa a lançar timidamente um rebentozinho inofensivo e encantador em direcção ao Sol. Se é um rebento de rabanete ou de roseira, pode crescer à vontade. Mas mal se perceba que é de uma planta daninha, é preciso arrancá-lo imediatamente. No planeta do principezinho havia umas sementes terríveis... eram as sementes de embondeiro. O solo estava infestado delas. Ora, se só se reparar num embondeiro quando já for bastante grande, nunca mais ninguém se vê livre dele. Atravanca o planeta todo. Esburaca-o com as raízes. E um planeta muito pequeno com muitos embondeiros acaba fatalmente por explodir."

 

 

O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry

publicado por FruttiTutti às 21:28
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Domingo, 21 de Junho de 2009

Já dizia o outro...

... lá do alto da sua sapiência, e de forma tão exaustivamente repetida que, mesmo que não quisesse, era impossível não interiorizar:

 

"Perspectivas quase ilimitadas se abrem hoje num horizonte nem sempre despido que contradições e até mesmo envolto em ensombradas núvens de verdadeira angústia." (1)

 

 

 

  

 

(Ora digam lá se isto não é pura "poesia"...)

 


 

(1) É rezar para que o Senhor Professor não seja cliente assíduo deste meu estabelecimento... senão, alguém se vai lixar!

 

Pelo sim pelo não, acho que vou remover a minha foto do perfil...

sinto-me: Obstetricamente frustrada
música: sei lá...
publicado por FruttiTutti às 02:32
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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Carta a alguém

Querido alguém, ou ninguém talvez,

 

Não sei bem o que te diga, mas apetecia-me conversar. Já tentei fazê-lo com as minhas quatro paredes, mas tornou-se aborrecido, elas são um pouco reservadas e não me contam muito de si. A minha televisão adoeceu e encontra-se em cuidados paliativos, já vi que não há muito a fazer, resta-me agora reservar-lhe pequenos confortos e um resto de existência descansado. Os meus telemóveis encontram-se estranhamente sossegados, quietos, prostrados, calados – acho que estão com alteração do estado de consciência ou então entregaram-se ao abandono. Os meus bonequinhos e peluches estão no sítio de sempre, mas têm os olhos baços e dirigidos para longe, como se evitassem focar-se em mim. Encontro-me, pois, muda há alguns dias, num silêncio interior e numa dúvida persistente. Olho à minha volta e constato mais uma vez que estou realmente só. Não é que não o esteja nos outros dias, mas esta é bem diferente daquela solidão acompanhada que constitui o meu dia-a-dia. Desta vez, queira ou não, estou mesmo só. Já ultrapassei a fase de me indignar porque não era suposto ser assim. Na verdade, parece que já desisti de tentar que assim não fosse. Ouço os sons vindos de fora e que fazem eco cá dentro, tão vazia me encontro – o cão da vizinha que ladra lá longe, a cigarra que faz um barulho irritante. Se não fosse sentir os passos da vizinha de cima e ouvir o barulho do helicóptero do INEM que se aproxima para aterrar no Hospital, acreditaria estar mesmo no meio do nada. Mas sim, estou mesmo no meio do nada. Olho para o relógio vezes sem fim, e cada minuto que passa é um minuto que dói. Deito-me, escondo-me nas almofadas. O telemóvel faz-me as perguntas de sempre mas eu recuso-me a responder.

Sabes, hoje senti-me realmente assustada. Assolou-me um pensamento que há muito não habitava em mim… precisamente aquele que mais me faz tremer, sofrer, abanar a cabeça com violência acreditando que ele assim se desvanece e nunca mais vai voltar. Sempre tive medo da morte. Para além da dos outros, da minha. Sempre quis acreditar que a minha vida seria como um filme ou um livro: enquanto dura, embrenhamo-nos na história, somos parte dela, vivemos lá dentro; quando termina, nós não terminamos com ela, nós permanecemos, pensamos, sentimos, somos, embora outra coisa qualquer. E depois tudo recomeça outra vez, mas quando termina, sempre regressamos à linha de base, onde continuamos a ser, a pensar, a sentir. Assusta-me pensar que com o verdadeiro Eu não seja assim, que depois de terminar não voltarei à “linha de base” e estarei pronta para outra. É este nada que me assusta. Este nada derradeiro e absoluto. E recuso-me a pensar que desapareça assim. E arrepio-me e contorço-me e escondo-me e choro. E não quero, com todas as minhas forças, que seja assim.

E olho mais uma vez para o relógio e dói mais uma vez. Acho que queria que o tempo voasse e levasse consigo todas as indiferenças e expectativas, todas as companhias ausentes, todas as conversas superficiais, para não ter de me cruzar com elas.

Sabes, acho que hoje desapareceu mais uma parte de mim.

E amanhã será um novo dia, com mais ausências, mais paredes, mais ocupações inadiáveis que se desfazem, mais nadas.

Voltamos a encontrar-nos amanhã.

Sempre tua, o que quer que seja,

Ana I.

 

publicado por FruttiTutti às 22:39
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Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Faz-me espécie!

Não há melhor maneira de começar o dia, principalmente tratando-se de uma Segunda-feira a seguir a um Domingo particularmente stressante:

 

Acordar 20 minutos depois da hora programada (à qual tinha de acordar impreterivelmente), tomar duxe a correr e levar com a porta (que se desmanchou do resto sem mais nem porquê) em cima da cabeça, avariar o secador, entornar o leite e acabar por sair de casa meia zonza sem nada no estômago por já estar absolutamente atrasada, descer no elevador a fazer a escala mental das toneladas de coisas que tinha de fazer nesse dia e no resto da semana e nas próximas semanas, torcer o pé à saída da porta, praguejar com os óculos de sol que me escorregavam da cabeça e deparar-me com a imagem que me faria sentir-me um cubo de gelo debaixo de um sol tórrido: o senhor meu vizinho que nunca vi mais gordo, todo lampeiro, calçãozinho e havaianas, pacificamente a atafulhar a mala do seu carro com malas, sacos térmicos, chapéus de sol e restante parafernália de apetrechos de veraneante que se prepara para acabar com o seu bronze de camionista e dedicar os próximos tempos única e exclusivamente à arte do anhanço, com o Record debaixo do braço e molhar o rabo de hora a hora na água limpida de uma praia paradisíaca qualquer, de preferência a milhas daqui.

 

 

Ora, eu, que ja tinha começado tão bem um dia que se adivinhava longo, ao deparar-me com este cenário, só me pude confrontar com aquele pensamento sempre animador:

"Calma, Anisabel, só te faltam dois meses de época de exames..."

publicado por FruttiTutti às 20:46
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Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Retalhos

Vesti o meu corpo de retalhos. Queria de uma forma indizível abraçá-los e, ao mesmo tempo, vê-los bem longe de mim. Eram retalhos dos pensamentos mais intimos, mais meus, dos desejos semeados em terrenos secos que os condenavam à morte mesmo antes de poderem florescer. Hesitei em cuidar deles, mesmo sendo meus. E quis afastar o perceber da respiração, o toque. Aquele toque que tinha ficado suspenso no ar e que eu queria atrair para mim, que eu tentava puxar com os meus olhos lânguidos, pela doçura, pela esperança, pela carência, pelo que ainda restava de mim. E as palavras jamais traduziriam aquilo que eu sabia estar a existir mas que tinha como errado, a voz da censura espetou-se como facas aguçadas que voavam na minha direcção. Mas mesmo com tudo isto eu senti-me bem, senti-me fresca, senti-me livre. Rodopiava e esvoaçava e estilhaçava-me em mil bocados que nunca se juntariam de novo da mesma forma como eram antes. Senti-me mudar de pele, de casca, de tudo.

Silêncio.

E fui bruscamente acordada de tudo isto e vi-me sentada no mesmo lugar, o mesmo eu, o mesmo tu, as velhas questões de sempre. E num suspiro esvaiu-se tudo o que poderia ser. Mas eu continuo a querer voltar ali. Ainda mais.

música: Beirut - Nantes
publicado por FruttiTutti às 00:29
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Domingo, 29 de Março de 2009

Crisis

Resultado:

 

[ESCREVER!]

Preciso tanto e não consigo.

Tenho tanta coisa para dizer e nenhuma palavra para o concretizar.

A bem dizer...

Sinto-me só.

 

 

publicado por FruttiTutti às 13:34
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Terça-feira, 3 de Março de 2009

Inundações.

A chuva voltou.

 

[Garanto que não pretendo fazer disto o relato periódico da meteorologia.]

[Mas o que estava acumulado transbordou.]

 

 

Estou um bocado farta de me sentir tão sozinha, tão diferente, tão pequena.

Farta de ver todas as costas viradas para mim.

Farta de chorar sozinha.

E de só desejar estar bem longe daqui, de mim.

Só queria um bocado de anestesia. Para seguir, indiferente ao resto, o meu caminho. Para evitar esta dor funda que cada vez é maior, cada vez é mais gritante, mais aflitiva, mais insurdecedora.

Só queria não estar aqui onde as pessoas são descartáveis e até o ar sabe a hipocrisia.

Já não vale a pena chatear-me. Vou-me deixar invadir pela inércia e permitir-me ser embalada pela onda. Por agora é esta a minha solução.

 

São apenas palavras sussurradas ao vazio.

 

 

Imagem: Francesca Crescentini

música: Silêncio
publicado por FruttiTutti às 21:44
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

Mais vale sol que mal acompanhada

Hoje, quando abri a janela do meu quarto, o sol brilhou-me de forma pouco usual. Tive vontade de escancarar a janela para além dos seus limites e deixar-me derreter por aquela luz quente e reconfortante que me saudava a horas já um pouco tardias do meu dia. Estranhei, principalmente por ter escolhido, sem conhecimento disso e desafortunadamente, um quarto onde a luz do sol não incide directamente. Mas hoje, contrariamente ao que é habitual, parecia que o sol dançava para mim. Não sei quanto tempo fiquei ali, imóvel e submersa na sensação, mas sei o quão magnífico foi. Muito irónico também.

Os meus últimos tempos foram recheados de sombra, de escuridão, de desalento e desânimo. E os últimos dias, esses, foram estranhos, como que acordar numa outra realidade que não é a nossa, sentirmo-nos por fora de nós, sem comando na nossa postura, nos nossos movimentos, no nosso ser - andei quase que como a submeter-me a fisioterapia de mim, reeducando-me, reconhecendo-me, a readquirir o meu eu soterrado nos escombros de uma época obscura, as minhas atitudes, a minha forma, o que verdadeiramente me constitui. E eu sentia-me observadora de mim, externamente.

Mas hoje senti-me finalmente coroada pelo brilho que já deixara de conhecer.

Decidi ir só, comigo, dar uma volta. E fiz a agradável descoberta de que, afinal, posso gostar da minha companhia.

No fim de contas, mais vale SOL que mal acompanhada.

música: Amy Obenski - Carousel
publicado por FruttiTutti às 23:57
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